11 de fevereiro de 2016

Pós-guerra


Sacudi os pés para ter certeza de que nem poeira levaria. Logo depois, a cabeça e só para ter certeza, mas daquelas absolutas que a gente costuma ter uma vez ou outra, e em uma vida, de que não era miragem. Não era sonho, mas também não era o pesadelo onde eu estava aprisionada. Travei a última batalha com honra e mesmo que ferida, o fim foi o melhor acontecimento desde então. Alguns arranhões contariam a história por mim mesmo que meus olhos negassem tudo. Pedia... Quero dizer, implorava com lágrimas, suor e dor para que Deus me tirasse do campo. Engraçado como as coisas mudaram. Estar no campo não era mais tão doloroso e apenas a dor cumpria com o seu papel, fora ou dentro das áreas de risco.

Todo dia, doía mais um pouco. Derrotei meus maiores medos até mesmo quando corria, fugindo, e só de volta para o perigo. Tolos os que me achavam nova demais para travar guerras, me apaixonar e sobreviver aos dois. Hoje estou voltando para casa e o colo da minha mãe. Ela estará me esperando com amor de verdade, daquele que não dá um desculpa ou sai pra passear e nem tem a intenção de voltar. Que não desaperece ou vira as costas pra nunca mais voltar. Já posso imaginá-la parada na varanda com o kit de primeiros socorros e a barra da saia preparada. Vai dizer "você não está sozinha" e voltarei com meus pedidos.

Deus, por favor, me deixe sozinha para aprender enquanto posso, enquanto há tempo, enquanto o amor existir e eu resistir às dores do passado. Não há mais o que passou e sou grata pelos restos e caquinhos que pude recolher, só para ninguém lembrar de mim ou me deixar jamais, nem por querer, nem sem querer. Que não me falte o que eu sou, muito menos amor demais por mim e depois, por quem me ama do fundo do coração. Amém.

Vai ser uma viagem longa até o recomeço. O tempo tem substâncias e circunstâncias milagrosas e infelizmente, não inventaram a máquina do tempo ainda ou algum medicamento que faça com que um soldado perca a memória e deixe para trás os terríveis momentos vividos em zonas de concentração. É tolice ignorar o que não se pode esquecer e nunca irei esquecer os motivos que me fizeram voltar para casa. Eles me trouxeram de volta à vida que sempre me pertenceu e que não está mais nas mãos de ninguém. Nem meu coração, tampouco eu.

A guerra acabou dentro e fora de mim. pois nada dura para sempre e promessas podem ser quebradas, assim como ossos, porcelana e corações. Aposto que ainda há vida onde houve guerra, mesmo que nunca amor, para quem muito amou ou para mim, que sobrevivi. Eu vivi... Estou viva para contar aos mais próximos que a guerra acabou e agradeço por cada dia fora, de mim e de casa. O meu lar é aqui e precisei sair para saber como voltar.

Obrigada, Deus. Obrigada por ter o direito de recomeçar, com tantas histórias para contar e sem nenhuma lágrima para derramar. Obrigada pelo fim que proporcionou, obrigada por não ter sido o meu. Amém.

2 comentários:

JP Malheiros disse...

Eu não sei se devia, mas me identifiquei com esse texto. Cada gota de solidão, cada mar de alegria, todos os respingos de tristeza. Sinceramente, eu não tenho muito como dizer nada além disso porque explicar com palavras não é muito simples. Isso fez sentir, sentir um pós-guerra. Suas palavras são incrivelmente bem postas nos lugares, e tenha certeza que alguém a mais é fã seu.

Jennifer Galdino disse...

Olá, é a primeira vez que venho aqui no seu blog e estou completamente apaixonada tanto pelo blog quanto pela forma como você escreve, você sabe como tocar uma pessoa e você conseguiu me tocar, me tocou tanto que eu até queria me inscrever no seu blog mas é uma pena que não tenha essa opção aqui, mas sempre que der eu vou dar uma passadinha por aqui.

http://idealizandolivros.blogspot.com.br/

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